Sentadas à porta da fábrica Pontual em Avintes, do lado de fora do portão, em cadeiras de campismo, as trabalhadoras vão fazendo turnos, noite e dia, para defender o património da fábrica, antes que seja desviado pelos patrões. Defendem o seu sustento. Algumas trabalham lá desde os 11 anos, há mais de 40 anos, “somos uma família”. Dentro da fábrica, dizem-nos, estão máquinas novas, lâmpadas, painéis fotovoltaicos, “agora até tem papel higiénico”. Há matéria-prima e encomendas prontas, a estragarem-se. A fábrica recebeu fundos do PRR.
Vai encerrar, segundo noticiado, com uma justificação difícil de compreender, até para um capitalista ferrenho: tinha encomendas a mais às quais não davam vazão! Não sabem quanto vão receber daquilo que está em atraso. Agora, vão alternando entre os turnos que auto-organizaram para defender o seu sustento, e as filas no centro de emprego, para onde foram encaminhadas: “Mais uma!” é o que ouvem lá.
Uma fábrica com condições renovadas para trabalhar, máquinas novas, matéria-prima, encomendas e trabalhadoras com vontade de trabalhar — ainda assim, a solução encontrada é encaminhar as trabalhadoras para o centro de emprego. Se isto é o mercado a funcionar, talvez esteja na altura de alguém explicar às trabalhadoras que mercado é este. Esta poderá ser a melhor oportunidade para pôr em prática aquilo que alguns partidos, nomeadamente os que suportam o governo e o executivo da Câmara de Gaia, têm timidamente, vindo a defender: em vez de dar subsídios às pessoas, devíamos pô-las a trabalhar.
Porque não abrir a fábrica e deixar estas pessoas continuar a trabalhar? Pode não dar o lucro que um novo patrão queria, mas elas, que trabalham lá há décadas, hão-de saber quantas encomendas precisam fazer para pagar o seu próprio salário e os custos do património que agora, de forma empreendedora e organizada, defendem. Deixem-nas trabalhar que elas hão-de dar vazão às encomendas!
Se a lógica é “não subsídios, trabalho”, então sejamos coerentes: demos às trabalhadoras da Pontual o direito legal de gerir e continuar a produção, através de cooperativa ou autogestão, com apoio do Estado ao arranque — não a patrões que dilapidam o investimento público e abandonam. É isso que décadas de luta sindical institucionalizaram na Alemanha, ter trabalhadores com lugar e voto nos conselhos de administração e direito a organizar conselhos de trabalhadores com poder real sobre a gestão. Por cá isso nem se discute.
Nota: O Bloco de Esquerda esteve na vigília a manifestar solidariedade com a luta das trabalhadoras e já questionou o governo sobre esta situação, uma vez que a fábrica foi beneficiária de fundos do PRR.