Tenho 70 anos e sou um beneficiário do passe social Gaia Amiga. Todos os meses, quando se aproximam os últimos dias, apesar de vivermos numa sociedade moderna, toda digital e online, tenho de ir de Oliveira do Douro até ao centro de Gaia para carregar o passe, uma exigência que me parece ser muito pouco moderna, nada digital e certamente muito offline.
Este mês de setembro não foi exceção. No dia 28, ao fim da manhã, lá fui mais uma vez mas, quando cheguei, aquilo estava fechado — já passava do meio dia. Estava fechado mas já tinha uma vintena de pessoas à porta, que me avisaram logo: meu amigo, se quer o passe tem de ir para a bicha, que isto agora só abre à uma. Em vez de ir para a bicha, resolvi mas é ir almoçar e voltar um bocado depois da uma, a ver se aquela gente já estava atendida e não tinha de esperar. A ideia pareceu-me boa mas a verdade é que quando cheguei, à uma e meia, a situação era ainda pior. A bicha agora era de oitenta pessoas. E o atendimento era feito por um só funcionário. Resultado: acabei por só ser atendido às 15h45m.
Não morri por causa disso, é verdade, até porque o tempo estava bom, mas pus-me a pensar como vai ser no inverno, com chuva e frio, naquela zona totalmente desabrigada e ventosa. Oitenta velhotes, sem qualquer proteção às intempéries, horas a fio molhados e com frio, a sofrer em pé para ter um passe, que o desgraçado do funcionário sozinho se esforça por despachar como pode. Não sei se é ignorância dos responsáveis, se é desprezo ou crueldade, mas sei que não é assim que gostamos de ser tratados.
Aproveitei aquelas horas na bicha para conversar com os meus parceiros de infortúnio e reparei que o descontentamento era generalizado, muitos até com expressões de revolta contra o atual Presidente da Câmara. Curioso é que todos diziam que não tinham votado nele. Mas o facto é que ele ganhou as eleições, por isso alguém deve ter votado. Talvez agora disfarcem por estarem arrependidos.
Quando foi propagandeado (através das redes sociais e não só) o Passe “Gaia Amiga“ para os mais de 65 anos, foi-nos prometido um mar de benefícios e facilidades porém, hoje, passado quase um ano, a realidade é bem mais dura.
Gostava de perguntar algumas coisas ao Sr. Presidente:
Mas, mesmo que se mantenha a atual condição, pelo menos tente arranjar uma solução menos demorada e em que os idosos, se tiverem que esperar algum tempo, o possam fazer em condições mínimas de conforto e dignidade.
Penso que já é tempo de os nossos políticos estudarem como garantir o acesso gratuito aos transportes urbanos para todos os cidadãos, como vimos propondo há mais de uma década e como já se faz em tantas cidades europeias. Uma rede de transportes funcionais e gratuitos, com bons horários e boas paragens, será um enorme contributo para a qualidade de vida dos munícipes e para a indispensável descarbonização do ambiente que exige a diminuição drástica do tráfego automóvel. Haja vontade…