O skate park que quase foi

O skate park que quase foi

Em 2014, um grupo de jovens de Gaia fez aquilo que a política gosta de elogiar nos discursos: organizou-se. Criaram o movimento Sk8Gaia, abriram uma página, lançaram uma petição e pediram algo revolucionário… um skate park.

Não pediram um centro comercial.

Não pediram um hotel.

Não pediram um parque de estacionamento.

Pediram um espaço público para praticar um desporto com dignidade e segurança.

Passaram mais de dez anos. Em todo o concelho, a resposta foi simbólica: uma rampa. Uma. Quase um monumento à escassez.

Em Canidelo, finalmente, parecia que a história ia mudar. Obra em fase avançada. Estrutura praticamente concluída. Jovens a acompanhar o processo. Expectativa criada. Dinheiro público investido.

E quando estava quase pronto, alguém decidiu que afinal não.

Suspendeu-se a obra.

Sem grande debate público.

Sem consulta à população.

Sem aquele detalhe incómodo chamado participação democrática.

A justificação? Incómodo para moradores. Impacto no trânsito. Funcionamento noturno fora de questão. E segurança (parece quase uma palavra mágica para acabar com as obras que não agradam as novas políticas de Gaia).

Curioso como o incómodo raramente é argumento quando se trata de outras construções bem mais pesadas. Curioso como o trânsito só se torna dramático quando o equipamento é para jovens. Curioso como o problema nunca é o excesso de betão — é quase sempre o excesso de vida.

A política tem destas ironias: passa anos a dizer que os jovens estão afastados, que não participam, que não se envolvem. E quando finalmente há um espaço que os chama para fora de casa, que cria comunidade, que promove desporto informal e gratuito, descobre-se subitamente que é perturbador.

Suspender uma obra quase concluída não é prudência. É desperdício. É indecisão. É falta de visão.

E há algo ainda mais preocupante: a ideia de que os espaços públicos devem funcionar como se fossem repartições. Abrem cedo, fecham cedo, e se fizerem barulho talvez seja melhor não existirem.

Cidades vivas não se constroem assim.

Constroem-se com uso.

Com luz.

Com convivência.

Com confiança.

Como eleito do Bloco de Esquerda em Canidelo, não posso aceitar que se crie uma expectativa numa freguesia e depois se puxe o tapete na reta final. Se há razões técnicas sérias, expliquem-nas. Se há alternativa, apresentem-na. E sobretudo: discutam-na com quem usa o espaço.

O que não serve é este hábito político de decidir primeiro e comunicar depois.

Gaia não precisa de mais promessas interrompidas. Precisa de coerência.

E Canidelo não precisa que lhe ensinem a viver o espaço público. Precisa que o respeitem.

O skate park que quase foi diz mais sobre a nossa forma de decidir do que sobre a prática do skate.

E isso devia preocupar-nos mais do que qualquer ruído.