Pedro Sánchez: se é uma questão de humanidade, é uma questão de ideologia

O Presidente do Governo Espanhol apressou-se a responder positivamente (embora de forma provavelmente insuficiente) ao grande movimento popular que levantou uma Espanha indignada  com o despejo de Maricarmen, uma idosa de 87 anos, com problemas de saúde, que foi expulsa do apartamento onde vivia desde 1956 por não ter condições para pagar uma nova renda exorbitante fixada pela imobiliária que comprou o seu prédio em Madrid.

 

Tanto no discurso no comício da “Izquierda Valiente”, como depois no Congresso, ao falar sobre a nova proposta de lei de protecção aos inquilinos, Pedro Sánchez sublinhou que esta “não é uma questão de ideologia, é uma questão de humanidade”. Esta repetida afirmação revela uma estranha visão do assunto (ou então é uma mera tentativa um bocado tosca de tentar intimidar quem se opuser ao projecto em defesa das mais amplas liberdades no mundo dos negócios).

 

É uma visão errada porque se a sua decisão é por uma questão de humanidade, então, e precisamente por isso, é por uma questão de ideologia. O humanismo é — tem que ser — parte integrante de qualquer ideologia de esquerda, tem mesmo que ser uma característica fundamental de toda a política progressista.

 

Não há nenhuma razão para negar que seja uma questão de ideologia. Todas as decisões políticas são determinadas ou, pelo menos, largamente influenciadas pela ideologia — o sistema de ideias, crenças e valores — de quem as toma. Uma política de direita corresponde a uma ideologia de direita, uma política de esquerda corresponde a uma ideologia de esquerda, uma política de centro corresponde a uma ideologia de centro, com é lógico e natural. Qual é o problema?

 

Esta moda lamentável, a que assistimos regularmente em Portugal, de sugerir que há quem faça política sem ideologia, só pode ter uma razão: esconder do público a sua ideologia, talvez por vergonha ou por medo de que o público não goste. É sempre uma forma desonesta de estar na política.

 

Proteger os inquilinos mais frágeis é uma opção ideológica? Claro que é. Como também o foi a medida cruel de expulsão de Maricarmen do seu apartamento, uma decisão de negócios seguramente compatível com a ideologia dos administradores da empresa imobiliária, para quem o tal humanismo não passará certamente de uma pieguice incompatível com a optimização da rentabilidade do investimento. Cada qual com os seus valores, é assim a vida.

 

Pode haver quem contra-argumente que o recuo da imobiliária, aceitando Maricarmen de volta sem aumento da renda e com um contrato de 8 anos, mostra que afinal não é bem assim, que há um coração que bate no peito dos especuladores, disponível para suavizar os seus princípios e diluir os seus preceitos ideológicos. Desenganem-se. O que há é uma competente e profissional estimativa dos custos enormes que o dano reputacional deste escândalo acarretaria, comparado com o valor da renda, por inflacionada e especulativa que fosse, de um único apartamento. Ainda por cima num prédio que ficaria famoso por ser o prédio dos filhos da mãe que tinham expulsado uma velha de 87 anos. Um prédio assombrado por tão mediático escândalo teria o seu valor de mercado drasticamente afectado. É esse o problema concreto que eles estão a tentar resolver e não há nisso nada que contradiga a mais pura e cruel ideologia da especulação capitalista.