Décadas sem solução para as comunidades ciganas em Grijó

Relatórios recentes da União Europeia e do Conselho da Europa voltaram a alertar para a situação da comunidade cigana em Portugal, apontando o país como um dos onde estas pessoas mais relatam discriminação e exclusão no acesso à habitação, emprego e serviços essenciais. Estes dados confirmam uma realidade persistente de racismo estrutural e marginalização que continua por enfrentar. Ao mesmo tempo, a normalização do discurso racista e o crescimento político da extrema-direita têm contribuído para agravar o clima de hostilidade e violência contra esta comunidade — isto não são sensações, são relatos concretos de assédio que a comunidade em Vila Nova de Gaia nos faz chegar.

É neste contexto também que se enquadra a situação que continua a verificar-se em Grijó, no nosso concelho. Ali, mais de 50 pessoas de etnia cigana vivem em barracas improvisadas, muitas sem acesso regular à água potável, eletricidade ou saneamento básico. Estas condições indignas têm consequências profundas na vida destas famílias e das suas crianças e continuam a expor a ausência de respostas públicas eficazes.

O Bloco de Esquerda denuncia esta situação há duas décadas. Já em meados dos anos 2000, numa campanha autárquica em que participava o mesmo presidente da Câmara que temos atualmente no Executivo, alertávamos para as condições inimagináveis em que viviam estas famílias e exigíamos o seu realojamento. Anos depois voltámos a denunciar o incumprimento das promessas feitas pelas instituições. Hoje, quase vinte anos depois, a realidade mantém-se: as pessoas continuam nas barracas e as soluções continuam por concretizar.

O mais recente alerta chegou ao Bloco de Esquerda através de moradores do acampamento, que voltaram a denunciar as condições degradantes em que vivem. Entretanto, situações recentes que envolveram a retirada de crianças destas famílias voltaram a colocar o foco público sobre o acampamento — mas é importante lembrar que o problema de fundo continua a ser o mesmo: décadas de abandono e falta de soluções para garantir habitação digna.

 

A Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia reconheceu ao longo dos anos a necessidade de realojamento destas famílias e chegou a anunciar projetos de habitação social, mas a verdade é que continuam por concretizar, quer seja um executivo laranja ou cor-de-rosa. Não é aceitável que, passadas décadas de promessas, estas famílias continuem a viver em barracas.

A situação de Grijó mostra como a exclusão da comunidade cigana não é um caso isolado, mas parte de um problema estrutural em Portugal. Combater esta realidade exige mais do que declarações: exige políticas públicas concretas, habitação digna e um combate firme ao racismo e à discriminação.

Para o Bloco de Esquerda é claro: nenhuma comunidade pode continuar a viver décadas em condições indignas enquanto o poder político adia soluções. O realojamento destas famílias é urgente e não pode continuar a ser adiado.

 

REFERÊNCIAS:

JN: Peritos europeus criticam portugal por retrocesso na integração da comunidade cigana.

RTP: BE denuncia condições inimagináveis em que vive comunnidade cigana em grijó.

3 BE: décadas de alerta.